
Detalhe do ex-Leão da Moma para a Kia
Eles nunca falham.
Em maior ou menor quantidade, eles sempre vão a Cannes. Invadem o Palais, cochicham na Croisette, nas festanças, nas sarjetas.
Às vezes, com diferentes estilos ou disfarces. Em outras, escancarados mesmo, sem medo de ser feliz e sem vergonha de nada. Nem de ninguém.
Vou logo dizendo que nem sou da ala radical, aquela que sonha com o extermínio deles. Muito menos da ala hipócrita, a que condena, mas continua fazendo. No frigir dos ovos, minha humilde opinião é a de que eles podem ser um interessante exercício criativo, muitas vezes até necessário para se livrar de policies idiotizantes e de regras sem sentido.
Mas, pegar leve é preciso…
Neste ano, o Cannes Lions, em junho, voltou a ser um enorme palco de fantasmas.
Para quem não domina o jargão publicitês, fantasma é a metáfora que identifica peças explicitamente criadas para tentar ganhar um premiozinho aqui ou ali. Na maior parte das circunstâncias, elas nunca apareceram na mídia e foram produzidas sem autorização ou sem conhecimento de anunciantes. Em outros casos, elas podem sim ser consentidas pelos senhores anunciantes e depois, se houver problemas, eles negam até a morte. Também podem ser veiculadas no truque – hoje em dia, vale pôster colado em parede de academia de ginástica para dizer que uma peça não é fantasma. Vale anúncio distribuído como flyer em porta de escola de Inglês, de Francês ou até de Esperanto. Vale aparecer na TV no meio da madrugada, em canais que falam de Deus ou de rituais satânicos. Vale criar uma conta no YouTube.
Vale tudo!
O Brasil acaba de perder dois de seus 67 Leões com peças publicitárias do Cannes Lions 2011. No geral, considerando o Leão de Agência do Ano da AlmapBBDO, o Brasil bateu seu recorde com 68 Leões neste ano. O recorde continua, mas agora com 66.
Os Leões perdidos, sob a acusação de serem fantasmas, são da Kia Motors, em peças de mídia impressa e mídia exterior, prata e bronze, respectivamente, criadas para divulgar um diferencial de ar condicionado nos modelos da montadora. É uma peça criativa, que também recebeu umas ridículas acusações de estimular pedofilia, mas que, quando você vê, frente a frente, fica fácil perceber que ela nunca foi veiculada em uma mídia de massa como a publicidade de automóveis sempre é.
Eu, particularmente, só conheci a peça da Moma para Kia em Cannes. Também só tive o prazer de conhecer muitos outros Leões do Brasil deste ano, principalmente os de Press e de Outdoor, áreas que o país detonou de tanto ganhar prêmios, só durante o festival. Muitas delas, inclusive de algumas agências bambambãs, eu colocaria no kit parede de academia/flyer de escola de idiomas. Ainda tenho um pouco de elegância para não ficar dando nomes aos bois, mas tinha até peça para ração de gato de marca própria de supermercado que não divulga – talvez nem tenha – marcas próprias.
O caso Kia é um perfeito exemplo de um ex-Leão anunciado.
Demorou! Serve para o Cannes Lions dar uma lição de moral diante de tantos absurdos fantasmas que foram vistos no festival. Do Brasil e de vários outros países. Pré e pós-premiação.
No shortlist de Press, por exemplo, havia anúncio asiático divulgando motosserra com uma assinatura “Desafie a natureza”. Imagina se alguém aprovaria isso nesses tempos de responsabilidade ambiental….
Vamos combinar que motosserra é um produto que nem pode ser anunciado. Ele é a antipropaganda, o antimarketing, o oposto à vida.
Havia peças de gente vomitando gente, cenas do mais alto teor disgusting worldwide!
Perdemos os dois Leões, mas não perdemos o recorde. Porém se o festival resolvesse investigar a fundo a veiculação de todos os Leões, desconsiderando as paredes de academia e similares, o recorde deste ano também iria para o beleléu.